Lendo "Bibliotecas no Mundo Antigo", de Lionel Casson, me deparei com os termos escribas e copistas. Embora já conhecesse a diferença de forma mais comum, o livro trouxe a oportunidade de aprofundar a questão. Apesar de serem usados frequentemente como sinônimos, pois ambos representam quem escrevia à mão antes da invenção da imprensa, existe uma distinção sutil, especialmente ligada ao status social e à autonomia de cada função, por isso, apresento as principais diferenças.
Escriba: administrador e intelectual
Na Suméria, os escribas eram a espinha dorsal da civilização. Em uma sociedade que inventou a escrita cuneiforme, para gerenciar a complexa economia de suas cidades-estado, esses profissionais detinham o "superpoder" da época: a alfabetização.
Eram formados na "Casa das Tábuas" (Eduba) e para se tornar um escriba era um processo longo, caro e rigoroso. Os jovens, geralmente de famílias ricas, frequentavam a Eduba, começavam aprendendo a moldar a argila e a cortar o estilete de cana. Depois, memorizavam milhares de sinais e listas de vocabulário, progredindo para matemática, contabilidade e literatura.
Historicamente, especialmente no Egito Antigo, na Mesopotâmia e na Judeia), o escriba era muito mais do que um "copiador". Ele era um profissional de elite e um funcionário público.
- Função: além de escrever, ele redigia leis, gerenciava impostos, registrava censos, interpretava textos sagrados e atuava como secretário real.
- Poder: possuía grande prestígio social porque dominava a escrita em sociedades onde a maioria era analfabeta.
- Autonomia: no contexto bíblico ou egípcio, o escriba podia ter autoridade para interpretar a lei ou adaptar textos administrativos. Eles eram os "guardiões do conhecimento".
O copista, apesar de já existir na Antiguidade, é mais comum a partir da Idade Média, como os famosos monges copistas, e a sua função foca, especificamente, no ato de replicar um conteúdo já existente.
- Função: sua principal tarefa era a reprodução mecânica e fiel de manuscritos de Bíblias, textos clássicos e de partituras musicais.
- Fidelidade: diferente do escriba administrativo, o objetivo do copista era não alterar nada. No entanto, em manuscritos medievais, eles acabavam inserindo pequenas notas de rodapé, chamadas glosas ou iluminuras.
- Contexto: podia ser um monge trabalhando em um scriptorium por devoção ou um profissional contratado por uma biblioteca ou universidade.
Se estamos falando sobre a administração de um império antigo, o correto é usar escriba. Se estamos falando sobre a preservação de livros e a criação de bibliotecas manuais, devemos usar copista.




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