terça-feira, 9 de junho de 2026

Arquivo na mídia

O Dia Internacional dos Arquivos é celebrado anualmente em 9 de junho. A data que vai muito além de uma simples comemoração, ela serve para nos lembrar de que os arquivos são a base da nossa memória coletiva, da Governança cprporativa,  da transparência pública e da garantia dos nossos direitos como cidadãos.

​A data não surgiu por acaso, ela faz referência direta à criação do Conselho Internacional de Arquivos (ICA), fundado sob os auspícios da UNESCO em 9 de junho de 1948.


​No entanto, a criação de um dia internacional específico para celebrar a causa só foi instituída oficialmente em novembro de 2007, durante a Assembleia Geral do ICA no Quebec, passando a ser comemorada globalmente a partir de 2008.

​Muitas vezes, quem é leigo no assunto pensa em arquivos como caixas empoeiradas, depositadas em subsolos desabitados, portanto, em algo sem importância, desvalorizado. Mas a arquivística moderna, que não é de agora, lida com preservação histórica, acesso rápido à informação e com dados digitais. Diante disso, faz-se necessário esclarecer a importância dos arquivos para esse público, podemos citar três papéis fundamentais na sociedade: 
​E se os arquivos servem à sociedade, antes de tudo servem à própria instituição a que ele pertencem, auxiliando na tomada de decisão, servindo de prova documental e resguardando a memória.

Por conta da riqueza do tema, o Conselho Internacional de Arquivos e diversas instituições pelo mundo (como o Arquivo Nacional no Brasil e a Torre do Tombo em Portugal) costumam estender as comemorações por uma semana inteira, promovendo palestras, exposições virtuais, workshops e abertura de acervos ao público.

​No ambiente digital de hoje, o maior desafio dos arquivos é a preservação digital a longo prazo, para garantir que os arquivos gerados hoje em computadores e redes sociais ainda possam ser abertos e lidos pelas próximas gerações.

sábado, 6 de junho de 2026

Anotações em livros ou marginália

Sabe quando você está lendo um livro e não aguenta a emoção, aí vai lá e escreve algo do lado do parágrafo? Ou quando puxa uma seta para anotar o significado de uma palavra difícil? Ou ainda quando grifa trechos que achou interessante? 


Tecnicamente, essas anotações são chamadas de margináliaMarginália é o conjunto de anotações / marcações que um leitor faz nas margens, espaços em branco ou folhas de guarda de um livro impresso ou manuscrito. Funciona como uma "coautoria silenciosa", um diálogo ativo onde o leitor registra pensamentos, críticas ou reações ao texto. Essas marcações vão desde notas e comentários, concordando ou discordando do autor, passando por desenhos, sejam ilustrações sérias ou mesmo desenhos aleatórios feitos por puro tédio na hora da leitura, rabiscos, até sinais gráficos como estrelas, pontos de interrogação, exclamações ou o clássico ato de grifar o texto.

Enquanto a marginália é qualquer rastro que o leitor deixa no papel, a glosa nasceu como uma ferramenta de estudo para tornar um texto compreensível. Sem as glosas dos estudiosos do passado, muito comuns em textos antigos e livros medievais e renascentistas, teriam se tornado completamente ilegíveis para nós hoje.

​Para alguns leitores mais puristas, riscar um livro é quase um crime. No entanto, para historiadores e literatos, a marginália é uma mina de ouro. Pode revelar o processo intelectual de leitores famosos ou fornecer contexto histórico sobre como uma obra foi recebida

Se atentarmos para o fato, é muito comum, dizermos que um livro imaculado é apenas um produto, já um livro anotado é uma memória viva. Claro que estou falando de livros pessoais. Anotações em livros de biblioteca ou livros emprestados por alguém, nem pensar, pois já se trata de vandalismo.

​A marginália transforma o livro de um objeto de consumo passivo em um registro de um diálogo entre o autor e o leitor. Funciona como pontes que ignoram a cronologia, são atemporais, porque as anotações são do tempo de quem leu a obra, por isso podem se tornar preciosas no futuro. Quando feitas por alguma personalidade do passado e descobertas depois de tempos, com certeza serão motivo de pesquisa ou pelo menos conseguimos entender o que a pessoa daquela época pensava e como a sociedade absorvia aquela obra. Sabemos que algumas marginálias se tornaram documentos históricos.
Dentre os escritores brasileiros, podemos citar a marginália de Machado de Assis. É tão importante que, anos após sua morte, pesquisadores e críticos literários publicaram estudos inteiros baseados apenas no que ele escreveu nas bordas dos livros. Um diálogo íntimo, silencioso e anotado a lápis com os maiores clássicos da literatura mundial.

​Em resumo, a marginália é a prova física de que a leitura é um ato vivo. É a pegada que o leitor deixa na neve do texto do autor, é a forma física de registrar o pensamento do leitor, um grafite pessoal e, muitas vezes, intelectual, que habita os limites do texto impresso.
Você é do time que mantém seus livros impecáveis ou do time que adora deixar suas próprias marginálias neles?

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Estantes bangunçadas, usuários satisfeitos!

Acesso livre às estantes é um problema nas bibliotecas? Jamais!

O acesso livre às estantes é a oportunidade que os usuários têm do contato direto com as obras para que possam fazer suas escolhas mais acertadas. É a autonomia que eles precisam para resolver suas demandas informacionais. É a liberdade que necessária para que a biblioteca atraia novos leitores.

O que acontece geralmente é quase um ritual. Ele pega um livro, dá uma lida lá na estante mesmo, se interessa, acha por bem sentar para ler mais profundamente. Daí conclui que não era bem isso que queria, retorna às estantes, coloca em qualquer lugar e assim, as obras vão andando, se deslocando, porque já vem outro em seguida e tem o mesmo comportamento. 

É nessa hora que as ciências se encontram e se abraçam de qualquer jeito, mesmo uma não tendo nada a ver com a outra. O Dewey quase infarta! Livro de sociologia indo parar nas finanças, livro de tecnologia na literatura, livro de marketing na psicologia aplicada e assim por diante... 

Imagem criada por IA a partir do trecho acima

Mas, estantes bagunçadas é sinal de usuários satisfeitos. O problema ocorre quando precisamos localizar uma publicação que ganhou pernas e foi parar, sabe-se lá onde.

Mesmo com a orientação para não colocarem de volta às estantes os livros manuseados/retirados, eles ainda o fazem. E é por isso que mantemos a rotina de revisar a organização dos livros nas estantes conforme a Classificação Decimal Dewey (CDD). O bibliotecário norte-americano de quem falei acima é o idealizador desse sistema que põe ordem ao caos nas bibliotecas.

E, trazendo para a minha realidade de trabalho, é nessa hora que conto com o trabalho primoroso e dedicado do estagiário de Biblioteconomia, Alexsander Lima, da Biblioteca Francisco Freitas Cordeiro, da Faculdade CDL, da qual sou a bibliotecária responsável. Ele simplesmente, em poucos dias, colocou a ordem no caos. Além de obedecer rigorosamente à classificação, colocou a ordem nos exemplares da mesma obra e os alinhou nas prateleiras.

E agora as estantes estão prontas para serem novamente mexidas, porque o que vale é o movimento, é o folhear, é a curiosidade, mesmo que não seja dessa vez a conquista. De uma forma ou de outra o leitor volta e aí nessa hora é fisgado pelo que realmente lhe interessa.  

Mas, por prudência, ficaremos sempre de olho 👁 para não deixar o caos retornar.

Este texto foi incentivado pela postagem no LinkedIn de Daniel Strauch e pela tarefa executada por Alexsander Lima, na Biblioteca da Faculdade CDL.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Pedagogia de hoje em dia

O Dia Nacional do Pedagogo é comemorado em 20 de maio, data instituída pela Lei nº 13.083/2015 para homenagear os profissionais que atuam na educação, coordenando, planejando e avaliando processos de aprendizagem em diversos contextos, como escolas, hospitais e ONGs, focando no desenvolvimento integral de crianças, jovens e adultos, valorizando o ensino e a formação.

A pedagogia contemporânea atravessa uma transformação significativa, impulsionada pela necessidade de se adaptar a um mundo em constante evolução. Diferente dos modelos tradicionais, a abordagem atual desloca o eixo do ensino para o aluno como protagonista, fundamentando-se na ideia de que o conhecimento é construído por meio da interação e da criticidade, conceitos herdados de pensadores como Piaget e Vygotsky.

​Nesse cenário, a integração de tecnologias digitais e o ensino híbrido deixaram de ser recursos acessórios para se tornarem pilares metodológicos. Ferramentas como inteligência artificial, realidade aumentada e plataformas de aprendizado personalizado permitem que o professor atue não mais como o único detentor do saber, mas como um facilitador. Essa mediação é essencial na aplicação de metodologias ativas, como a Sala de Aula Invertida e a Aprendizagem Baseada em Projetos (ABP), que estimulam a resolução de problemas reais e o engajamento prático.

Aliado ao uso da tecnologia, o reconhecimento da individualidade do estudante ganha força por meio da personalização e flexibilização do ensino. Ao compreender que cada aluno possui um ritmo e estilo de aprendizagem único, a escola moderna busca uma educação inclusiva e diversa. Isso implica não apenas no uso de tecnologia assistiva para alunos com necessidades especiais, mas na promoção de um ambiente que supere exclusões sociais, étnico-raciais e culturais, garantindo que o direito ao saber seja equânime.

Sala de aula didática interativa

Contudo, a formação do indivíduo hoje ultrapassa o conteúdo curricular estritamente acadêmico. Há um foco crescente no desenvolvimento socioemocional e integral, priorizando competências como empatia, resiliência e trabalho em equipe. Tais habilidades são vistas como fundamentais para que o cidadão consiga lidar com os dilemas complexos da atualidade, como o excesso de informação e o estresse da automação, preparando-o para uma atuação crítica e equilibrada na sociedade.

​Consequentemente, essa nova realidade redefine o papel do pedagogo, cuja atuação se expande para além dos muros escolares. Se no ambiente escolar ele é o articulador que organiza as práticas pedagógicas e coordena processos educativos, em espaços não escolares, como hospitais, empresas, e ONGs, ele se torna um gestor do conhecimento e do desenvolvimento humano. 

O pedagogo moderno é um agente de transformação social, essencial para sistematizar e produzir conhecimentos que dialoguem com as mudanças de valores e os desafios de um futuro em constante construção.

E eu saúdo a minha mãe, pedagoga, arte-educadora e teóloga, que apesar de ter 95 anos, quase 96, atuou brilhantemente na Escolinha O Cogumelo, dirigindo-a por mais de 20 anos, sempre à frente dos tempos com técnicas e métodos educacionais.

domingo, 17 de maio de 2026

Balcão de biblioteca

O que pode existir de comunicação em um balcão de biblioteca? Eu respondo: tudo e mais alguma coisa, perguntas, dúvidas, justificaticas, histórias, lamúrias, apresentações, opiniões, discussões, conquistas, decepções, desculpas, coisas desse tipo e muito mais. São sentimentos revelados e fatos relatados.

No trabalho de referência do bibliotecário, além da tarefa em si de ouvir, mediar, Interpretar, buscar e atender às necessidades informacionais dos usuários, cabe também a escuta geral. Como coloquei antes, são assuntos pessoais de todas as esferas, assuntos do dia a dia, do que está acontecendo na sociedade e no mundo. Esses assuntos, na maioria das vezes, passam longe do cerne da atividade, mas, como têm a ver com o usuário, vamos a eles, precisamos ouví-los e atendê-los,
afinal, estamos a postos para o que der e vier.

Mas, voltando ao balcão de biblioteca, é por intermédio dele que muitas vezes a atividade de referência se inicia e acontece. E também por muitas vezes torna-se difícil por conta da falta de precisão e até de comunicação certeira do usuário. Se por um lado ele é falante e espontâneo em relação a outros assuntos, na hora de explicar a que veio é tímido, não tem clareza e até acha que temos uma bola de cristalMas, são os ossos do ofício, cabe ao bibliotecário, com suas técnicas e recursos, decifrar essa demanda.

Não é incomum nas conversas entre bibliotecários ouvirmos como alguns usuários se expressam para demonstrar seus interesses. Podemos citar algumas dessas passagens:

  • quero o livro do professor da sexta-feira;
  • desejo aquele livro bem grosso e amarelo;
  • você tem um livro que tem o conteúdo do questionário que o professor passou para responder?
  • Preciso do livro que o autor compara dois conceitos daquele assunto, daquela disciplina;
  • vou elaborar um artigo, você tem um livro que fale de xxxxxxxx xxxxxx xx xxxxxx xxxxxxxxxx xxxxx ?  (exatamente o título do artigo)
É uma "perturbação" por conta da dependência, da certeza de que vamos solucionar a questão. Mas, em todo contato desse tipo é uma oportunidade de irmos educando para a autonomia junto ao acervo e aos serviços bibliotecários em geral, afinal, estamos ali para isso, hiper super bibliotecários na solução de problemas e o balcão de biblioteca facilitando tudo isso.

domingo, 10 de maio de 2026

Mimo para a mãe

Uma delicadeza com carinho para o Dia das Mães, na Mrh Arquivos e na Faculdade CDL.


domingo, 3 de maio de 2026

Livros nunca são demais

Livros nunca são demais, enriquecem,  complementam e embelezam o ambiente, proporcionando a oportunidade de ampliar o conhecimento.


Na Iceland, depois de uma saborosa pizza e um delicioso gelado, uma leitura para alimentar também a mente.

Livro e leitura livres

A leitura, quando despojada da obrigação e do peso do desempenho, deixa de ser uma tarefa para se tornar um território de liberdade. Incentivar o hábito de ler fora dos muros das exigências escolares, acadêmicas ou profissionais é, na verdade, um convite à autonomia e ao prazer da descoberta.

A ação de deixar a coisa livre, sem obrigação, sem tempo certo, apenas oferendo opções variadas, é um grande convite e incentivo à iniciação e prática da leitura. É assim que formamos leitores.


​Diferente da leitura imposta, que muitas vezes busca apenas a absorção de dados, a leitura espontânea permite que o leitor dite seu próprio ritmo. É nesse espaço de gratuidade que o livro se transforma em refúgio (desconexão da rotina e tela), espelho (ecos de nossas próprias emoções e dilemas) e janela (realidades e culturas sem a necessidade de um passaporte).

​Incentivar sem impor exige uma postura de curiosidade compartilhada. Em vez de cobrar a leitura de um clássico por puro dever, o incentivo eficaz acontece pelo exemplo e pelo acesso. Ter livros ao alcance das mãos, falar sobre o que se leu com entusiasmo e permitir que cada pessoa encontre seu gênero, seja o romance, a biografia ou a ficção científica, é o que constrói leitores de fato.

​Ler por prazer é exercer o direito de não terminar um livro que não agrada e de se perder naquelas páginas que nos fazem esquecer o tempo. É, em última análise, um dos maiores exercícios de liberdade individual que podemos cultivar.

Na Faculdade CDL, além da biblioteca física e virtual da Pearson, com diversos títulos à escolha, temos o Projeto Livre Leve e Solto, em que qualquer pessoa deixa o livro livre no totem e quem quiser pega e leva. Para aqueles que ainda têm resistência ao uso da biblioteca, é um convite e tanto.

domingo, 26 de abril de 2026

Uma trama do acaso

Vou começar essa postagem falando de uma trama, que se iniciou em 2018 e teve um desfecho agora em 2026. Mas, antes, vamos entender o que é trama.

Na literatura  a trama é o encadeamento lógico e causal dos eventos em uma história. Ela foca no porquê as coisas acontecem e como os conflitos se conecta. Geralmente traz os elementos: exposição, o nó (conflito), o clímax e o desfecho. Tem como objetivo prender a atenção do leitor ou espectador através do mistério, da tensão ou da progressão dramática.

​Já na indústria têxtil é o conjunto de fios que cruzam transversalmente os fios longitudinais em um tear, para formar o tecido.

No cotidiano, o termo também aparece de forma metafórica como a "trama da vida", referindo-se à complexidade das relações humanas e dos eventos interconectados que compõem a existência.

Pois bem, essa postagem vai misturar os três significados, propositadamente, fazendo uma trama de significados.

Em 2018, na Semana Nacional do Livro e da Biblioteca da Faculdade CDL, trouxemos duas escritoras cearenses para falar de sua obras e de suas experiências como escritoras. Socorro Acioli e Marília Lovatel. Fiz até uma postagem a respeito.

Pois bem, naquele ano conheci as duas, bem como o trabalho literário de cada uma, mas não tive a oportunidade de ler alguma das obras. A oportunidade chegou agora. "A Cabeça do Santo" está disponível no site do MEC Livros , vou já lá conferir, e "A Menina dos Sonhos de Renda", bem, essa é a tal de que vou falar agora.

Neste mês de abril, aliás, mês recheado de datas comemorativas referentes à literatura, minha filha esteve em uma loja e se deparou com um livro. Encantada com o título e a capa, abriu em uma página, leu, gostou, fotografou e me mostrou. Foi aí que a trama começou a se desenrolar, pegando o gancho de 2018.



O trecho, que fala exatamente de origens históricas e culturais foi motivo para chamar sua atenção. Em outro dia, sabendo que aprecio uma boa leitura, ela foi e comprou o tal livro. Quando me entregou, vi que a autora era Marília Lovatel. Contei a minha filha sobre a coincidência, falando do meu encontro com ela em 2018. 

O livro, é uma maravilha, uma história poetisada, uma prosa poética com lirismo, uma ficção com pitadas de realidade e verdades. O estilo dialoga com a oralidade e a herança das histórias passadas de geração em geração. Há uma valorização do saber ancestral, tratando a tradição não como algo estático, mas como uma linguagem viva que se renova através dos olhos da "menina".

O estilo poético é muito parecido com os escritos de minha mãe, em "Poesia do Meu jeito". Li em dois tempos. Encantada, levei o livro para mostrar a minha mãe, causando o interesse dela imediato em conhecê-lo. Li em voz alta para ela.

Caricatura IA a partir da foto real.

Gostou muito, tanto pela trama em si, como pela história rendada, pois ela aprecia demais uma linda renda, seja qual for o seu tipo e a sua lenda.

A trama de que falo, foram essas coincidências, O caso dos encontros, que aproveito agora para devolvê-las também em versinhos.

Livro A Menina dos Sonhos de Renda

O livro pensado outrora,
Pelas minhas mãos desliza,
Oito anos se foram agora,
E o plano enfim se realiza.
Ler para minha mãe o que tanto esperei,
É a alegria que hoje encontrei.

​Na trama escrita, o laço se faz:
Avó, mãe e filha em união.
Na vida real, o espelho traz
Três gerações num só coração.
A poesia da Marília é o elo,
Que torna o nosso trio um castelo.

AnaLu

domingo, 19 de abril de 2026

Povos originários: ancestralidade histórica e presença atual

Falar sobre os povos originários do Brasil exige olhar tanto para a profundidade histórica quanto para a resistência contemporânea. É impossível reduzir centenas de etnias a um único conceito, pois estamos tratando de uma diversidade cultural, linguística e social imensa. Ainda mais porque não sou especialista, muito menos estudiosa sobre a causa.

Mas, diante do dia de hoje em que é comemorado o Dia dos Povos Indígenas, posso trazer alguns​ pontos para homeneageá-los e para refletirmos a respeito.


Quanto à diversidade e pluralidade, sabemos que antes de 1500 estima-se que viviam no território entre 3 e 5 milhões de pessoas, divididas em mais de mil povos com troncos linguísticos distintos.

​Segundo o Censo do IBGE, hoje, o Brasil possui cerca de 1,7 milhão de indígenas, pertencentes a mais de 300 etnias e falando mais de 270 línguas vivas. ​A história dos povos originários não é apenas de "descoberta", mas de invasão e resistência.

​Diferente do século passado, onde a visão era muitas vezes de um indígena "passivo" ou em extinção, hoje vemos um forte protagonismo político. A criação do Ministério dos Povos Indígenas e a presença de lideranças em cargos de decisão (como no Congresso e na Funai) mudaram o patamar do debate público.

Também verificamos um crescimento exponencial de escritores, cineastas, artistas e acadêmicos indígenas que narram suas próprias histórias, combatendo qualquer tipo de estereótipo antes atribuído.

​É impossível não respeitá-los, nao admirá-los, afinal, contamos com muita influência desses povos, que está no DNA do Brasil, desde a culinária, passando pela língua, haja vista os milhares de nomes de cidades, plantas e animais, até ​os costumes, que todos nós conhecemos tão bem.

​Também é fundamental evitar o termo "índio", que é uma generalização imprecisa e carregada de estigma colonial. O termo indígena (que significa "original do lugar") ou povos originários é o mais adequado para respeitar a identidade dessas populações. A Lei 14.402/2022 determinou essa nova forma de denominá-los.

Aqui no Ceará, por exemplo, a herança dos povos Tremembé e Tabajara é um pilar central da identidade local, mesmo que muitos cidadãos só a descubram ao pesquisar a árvore genealógica.
As tradições slenciosas dizem muito dessa ancestralidade, como hábitos que a família nem percebe que são de origem indígena, tais como
​O uso medicinal de certas plantas, as técnicas específicas de preparo de alimentos, o vocabulário regional usado pelos mais velhos. É importante reconhecermos e valorizarmos tudo isso.

sábado, 18 de abril de 2026

Celebração e compromisso no Dia Nacional do Livro Infantil

Hoje comemoramos o Dia Nacional do Livro Infantil, instituído em homenagem ao nascimento de Monteiro Lobato, que, por ser o precursor da literatura infantil brasileira, é considerado o "pai" da literatura infantil brasileira.

Lobato não apenas escreveu para crianças, ele revolucionou a forma como a infância é tratada na literatura, criando o universo do Sítio do Picapau Amarelo, onde a fantasia e a realidade se fundem para estimular o pensamento crítico e a autonomia dos pequenos leitores. Para ele, o livro era o motor de transformação de uma nação.

Este dia é uma oportunidade para um chamamento de incentivo às nossas crianças, não como uma tarefa isolada, mas como uma prática rotineira e prazerosa que as acompanhará para por toda a vida.

​No centro desse processo, destacamos a atuação do bibliotecário. Como mediadores itinerantes, nossa missão ultrapassa os limites físicos das estantes. Analisando, vemos que o trabalho do bibliotecário junto ao público infantil é multifacetado.


Na Biblioteca, criamos o primeiro contato mágico, transformando o acervo em um território de descoberta e acolhimento. Na Família, atuamos como orientadores, sugerindo caminhos para que pais e responsáveis integrem o livro ao cotidiano doméstico. Na Sociedade, defendemos o acesso à informação e à cultura como direitos fundamentais, combatendo o deserto literário e promovendo a inclusão.

​Ser bibliotecário mediador intinerante é ser a ponte viva que conecta a curiosidade da criança ao universo infinito da leitura.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Um marco histórico: 300 anos

A "Loira desposada do Sol" é a famosa metáfora que Paula Ney criou para caracterizar Fortaleza. Fortaleza hoje completa 300 anos de uma trajetória que transformou um forte de resistência em uma das metrópoles mais vibrantes do Brasil.

Uma herança de pedra e cal. Diferente de muitas cidades que levam nomes de santos ou termos indígenas, o nome de Fortaleza é puramente funcional e militar. Ele deriva do Forte de Nossa Senhora da Assunção.

​A palavra "Fortaleza" evoca a ideia de um lugar fortificado, seguro e invencível. Curiosamente, a estrutura que deu origem ao nome não foi a primeira tentativa. A região abrigou o Forte Holandês Schoonenborch, construído por Matias Beck, em 1649.

​Mas, com a retomada pelos portugueses que recuperaram o território, a fortificação  foi rebatizada, e o pequeno vilarejo que cresceu ao redor passou a ser conhecido como a Vila da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção.

Imagem Wikipédia

​A história de Fortaleza não começa apenas com os muros de pedra. A região à época já era habitada por grupos indígenas como os Tremembés e Pitaguarys, que já conheciam as dunas e o litoral muito antes das caravelas.

​Embora o Forte holandês seja de 1649, a data oficial do aniversário celebra o ano de 1726., pois, foi nesse dia que a pequena Vila da Fortaleza foi oficialmente instalada, ganhando autonomia política e administrativa. 

Imagem Wikipédia

Celebrar os 300 anos em 13 de abril de 2026 é reconhecer três séculos de evolução urbana, de crescimento econômico, de belezas naturais, de receptividade e acolhimento com os turistas, e de tantas outras coisas mais.

Parabéns, Fortaleza! Minha Cidade querida. Que o sol continue sendo seu maior anfitrião e que os próximos séculos sejam tão brilhantes quanto o reflexo da luz na Praia de Iracema.

sábado, 4 de abril de 2026

Hora de "malhar o Judas"

A tradição de "Malhar o Judas" é antiga, embora carregue um tom de manifestação popular e folclórica, possui raízes profundas na narrativa da Paixão de Cristo e no sentimento de justiça cristã. 

Consolidou-se entre os séculos XI e XIV na península Ibérica, chegando ao Brasil através dos colonizadores portugueses e espanhóis, adaptando-se à cultura local. Tornou-se, então, uma festa comunitária muito forte, especialmente no interior e nas cidades coloniais.

No contexto da Semana Santa, esse rito simboliza o acerto de contas espiritual com aquele que, por trinta moedas de prata, entregou o Messias.

Para o católico, a leitura que se faz da figura de Judas Iscariotes é de fragilidade humana e o perigo da ganância. Malhar o boneco de palha no Sábado de Aleluia não é um ato de celebração da violência, mas sim uma simbologia contra o mal.

Sob o foco católico, isso serve como um exame de consciência coletivo. Ao apontar a traição de Judas, a comunidade é convidada a identificar em si mesma as pequenas traições diárias, tais como a fofoca, a desonestidade e a falta de caridade.

E você, já fez seu exame de consciência? Já refletiu em que pode melhorar?

Com o passar dos séculos, a tradição evoluiu. No Brasil e em outros países da América Latina, o Judas deixou de ser apenas a figura bíblica para se tornar um espelho de personagens impopulares da sociedade, como políticos, empresários ou figuras públicas que a comunidade sente que "traíram" o povo.

E você, tem algum Judas para malhar?

Aqui em Fortaleza, é tradição o José do Judas confeccionar vários bonecos para este fim e expô-los para venda na avenida Murilo Bordes. E como eu sempre faço esse trajeto, fiz essas imagens que compartilho aqui, já fazendo a leitura, conforme o contexto.




sexta-feira, 3 de abril de 2026

5W2H aplicado à gestão documental

Gosto muito da ferramenta 5W2H. Apesar de usá-lá em treinamentos internos, em projetos, em planos de ação nas empresas em que trabalho e também no dia a dia da vida pessoal, nesta, às vezes, quase sem perceber, não conhecia ainda a fundo a sua origem. Então, fui buscar informação a respeito.

Nasceu no "chão de fábrica". Ela surgiu dentro do Sistema Toyota de Produção, no Japão, durante a reconstrução industrial do pós-Segunda Guerra Mundial (meados da década de 1950 e 1960), afinal, o país tinha se erguer. Originalmente, ele foi criado para ser um checklist de gestão da qualidade.

Diferente de hoje, que usamos para planejar quase tudo, a intenção original da Toyota era eliminar a ambiguidade. Em uma linha de montagem, as ordens não poderiam ser vagas. Por exemplo, uma ordem como "melhorar a peça", era preciso dizer quem faria, como faria e por que, quando, qual peça. Além disso, tinha que haver a padronização, garantir que qualquer operário, em qualquer turno, entendesse exatamente o processo de fabricação ou a correção de um defeito.

A ferramenta também servia para apoiar a "melhoria contínua". Se algo dava errado, o 5W2H ajudava a traçar um plano de ação imediato para que o erro não se repetisse.

Mas, por que essa ferramenta se tornou tão famosa?

Antes do 5W2H, os planos de ação eram frequentemente textos longos e confusos. Os engenheiros japoneses perceberam que, respondendo a essas perguntas o problema teria um plano para solução.

No início, era apenas 5W1H. O segundo "H" (How Much / Quanto custa) foi adicionado posteriormente, quando as empresas perceberam que não adiantava ter um plano perfeito se ele não coubesse no orçamento.

Com o sucesso, foi sendo aplicado universalmente, de forma que o 5W2H é uma das ferramentas mais versáteis para a gestão, ela pode ser usada para elaboração de planos de ação nos mais diversos segmentos e e situações.

Pegando esse gancho, analisei a ferramenta e percebi que pode ser usada na gestão documental, não como um plano de ação comum, mas como um framework, para organizar o caos documental, seja ele físico ou digital, claro, sem esquecer as premissas necessárias.

Trazendo, então, para a realidade arquivística, resignifiquei cada letra do famoso acrônimo, conforme a seguir. 

🎯What (O que?) 
O primeiro W é o objeto. O que vamos trabalhar? Quais documentos? Precisamos classificá-los e padronizar a descrição para identificá-los corretamente e ser possível a sua localização na hora da busca.

👉🏻Who (Quem?)
Este segundo W é a proveniência do arquivo. Quem é o produtor/receptor dos documentos desse fundo? É necessário conhecer a estrutura organizacional, as funções, as atividades exercidas por completo, pois são elas que acumulam os documentos. 

🎯Why (por que?)
O terceiro W é a justificativa. É necessário conhecer a finalidade de cada documento que compõe o arquivo, isso, juntamente com o W anterior ajuda muito na definição da estrutra do arquivo, para possibilitar a construção dos instrumentos arquivísticos.

⏳When (Quando?)
O quarto W se refere à Temporalidade (Tabela de Temporalidade Documental - TTD). Por quanto tempo cada documento ou conjunto documental deve ficar no arquivo corrente (uso frequente), no arquivo intermediário (uso esporádico)? Quando deve ser eliminado ou guardado permanentemente? As informações desse W juntadas às anteriores ajudam na construção da TTD.

📍Where (Onde?)
O quinto e último W é a localização, não é apenas onde o arquivo está, mas onde ele deverá estar de acordo com sua fase de vida, ou seja, respeitando o ciclo documental: onde deve estar na idade corrente, na idade ntermediária e na permanente? E ainda, onde fazer o descarte quando chegar o tempo certo?

🗂️How (Como?)
Esse primeiro H se refere a como será o arranjo (estrutura), já conhecida antes, como se dará a organização (o todo) e como será a indexação (o refinamento). Associando ele a todas as demais informações já conhecidas e definidas nos cinco Ws, conseguimos "colocar a mão na massa", ou seja, executar as tarefas operacionais.

🗄️How Much (Quanto?)
Aqui, no segundo H e última letra do acrônimo, avaliamos o custo nos aspectos abaixo especificados, que terminam incidindo no aspecto financeiro, tradicional da ferramenta:
  • linearidade (quantos metros lineares de documentos existem?);
  • ​unidades (qual a quantidade de caixas-arquivo, pastas ou itens individuais?);
  • digital (quantos terabytes (TB) ou gigabytes (GB) de dados serão gerados ou migrados?).
Imagem de IA adaptada
 Geração a partir dos principais tópicos do texto

A aplicação dessa ferramenta possibilita que a gestão de documentos tenha início correto e possa ter continuidade, afinal, ela é dinâmica, tal qual o funcionamento de uma organização, seja ela pública ou privada.

terça-feira, 31 de março de 2026

"Penso, logo existo"

Hoje é o dia dele! Viva!

René Descartes não é apenas o "pai da filosofia moderna"; ele é o herói de quem gosta de questionar absolutamente tudo. Sou fã dele. Nas questões, sempre faço o papel de "advogado do diabo" para questionar e analisar por outros ângulos.

Descartes valoriza a autonomia do pensamento, convidando-nos para uma rebeldia intelectual. Ele viveu em uma época em que o conhecimento era baseado na autoridade, quando acreditavem cegamente no que a Igreja ou os antigos diziam. Daí decidiu que isso não bastava. Sua proposta é: não aceite nada como verdade se você não puder compreender de forma clara e distinta. Dessa forma, ele dá permissão para duvidar de tudo até encontrar algo inabalável.

​Portanto, a dúvida em Descartes é como uma ferramenta para o pensamento, não é um estado de crise. É a dúvida metódica que funciona como um reset para a mente. Descartes ensina que duvidar não é fraqueza, mas um processo rigoroso para eliminar preconceitos, pensamentos pré-existentes e arcaicos. É saber pensar de forma crítica. Com isso, há um protagonismo da consciência.

Imagem de IA

​Ao chegar na famosa conclusão "Cogito, ergo sum" (Penso, logo existo), ele coloca o indivíduo no centro do universo do conhecimento. A primeira certeza absoluta não vem do mundo exterior, mas da sua própria capacidade de pensar. É uma validação poderosa da existência individual.

​O método que propõe, organiza o caos. São quatro regras de ouro:
  • ​Dúvida metódica: Nunca aceitar algo sem prova.
  • Análise: Dividir problemas complexos em partes menores.
  • Síntese: Resolver do mais simples para o mais difícil.
  • Revisão: Revisar tudo para garantir que nada foi esquecido.
​Descartes conectou Ciência e Matemática, não ficou só no "mundo das ideias". Ele criou a Geometria Analítica (o famoso plano cartesiano). Sem ele, talvez não tivéssemos o desenvolvimento do cálculo ou da física moderna como conhecemos. Ele mostrou que a natureza pode ser descrita com a precisão da matemática.

​Foi diferente de muitos filósofos que escreviam de forma densa e em latim. Escreveu o Discurso sobre o Método em francês (a língua popular da época), para que qualquer pessoa da época com "bom senso" pudesse entender. Ele acreditava que a razão é a coisa melhor distribuída no mundo.

​"Não basta ter o espírito bom, o principal é aplicá-lo bem" (René Descartes, em Discurso do Método).

domingo, 29 de março de 2026

Referência com excelência

O serviço de referência é frequentemente descrito como o "coração" de uma biblioteca. Ele representa o ponto de encontro entre a necessidade de informação do usuário e a vasta coleção (física ou digital) de uma instituição.

​Em termos práticos, é o setor responsável por auxiliar o usuário a localizar, recuperar e utilizar a informação de maneira eficiente.

Diferente dos processos técnicos (como catalogação ou classificação), que ocorrem nos bastidores, o serviço de referência é a face pública da biblioteca. Ele exige que o profissional atue como um mediador ou facilitador, um intérprete, um buscador, que tem que conhecer um pouco de tudo e todas as formas de expressão dos usuários para fazer suas entregas com excelência. É um trabalho intenso no dia a dia, cheio de resiliência, mas é muito compensador.


Portanto, diante disso, vimos que o valor de uma biblioteca não é medido apenas pelo que ela possui, mas pela capacidade de conectar o que possui a quem precisa. Os mestres mais clássicos como Melvil Dewey e Ranganathan sempre defenderam essa ideia.

Dewey (1851-1931)

Dewey trabalhou com o conceito de eficiência. O criador do sistema de classificação decimal, CDD defendia o lema: "O melhor conteúdo, para o maior número de pessoas, ao menor custo". O foco dele era a eficiência da conexão, algo que a sua frase reflete muito bem.

Ranganathan (1892-1972)

Já Ranganathan com suas leis foi o primeiro a formalizar que o valor de um acervo é zero se ele não for utilizado. Embora ele não tenha dito essas palavras exatas, a frase é uma paráfrase direta das suas Cinco Leis da Biblioteconomia (1931), mais especialmente a 2a., 3a. e 5a.:
  • Segunda Lei: Para cada leitor, seu livro;
  • Terceira Lei: Para cada livro, seu leitor;
  • Quinta Lei: A biblioteca é um organismo em crescimento.
Por fim, na atualidade, trazendo o pensamento de David Lankes, vimos que ele reforça a ideia de que não adianta ter grandes coleções e possibilidades de acessos se esses produtos não atingem a comunidade, não levam aprendizado. 

As três visões mostram que é dessa forma que temos um serviço de referência com excelência.