domingo, 26 de abril de 2026

Uma trama do acaso

Vou começar essa postagem falando de uma trama, que se iniciou em 2018 e teve um desfecho agora em 2026. Mas, antes, vamos entender o que é trama.

Na literatura  a trama é o encadeamento lógico e causal dos eventos em uma história. Ela foca no porquê as coisas acontecem e como os conflitos se conecta. Geralmente traz os elementos: exposição, o nó (conflito), o clímax e o desfecho. Tem como objetivo prender a atenção do leitor ou espectador através do mistério, da tensão ou da progressão dramática.

​Já na indústria têxtil é o conjunto de fios que cruzam transversalmente os fios longitudinais em um tear, para formar o tecido.

No cotidiano, o termo também aparece de forma metafórica como a "trama da vida", referindo-se à complexidade das relações humanas e dos eventos interconectados que compõem a existência.

Pois bem, essa postagem vai misturar os três significados, propositadamente, fazendo uma trama de significados.

Em 2018, na Semana Nacional do Livro e da Biblioteca da Faculdade CDL, trouxemos duas escritoras cearenses para falar de sua obras e de suas experiências como escritoras. Socorro Acioli e Marília Lovatel. Fiz até uma postagem a respeito.

Pois bem, naquele ano conheci as duas, bem como o trabalho literário de cada uma, mas não tive a oportunidade de ler alguma das obras. A oportunidade chegou agora. "A Cabeça do Santo" está disponível no site do MEC Livros , vou já lá conferir, e "A Menina dos Sonhos de Renda", bem, essa é a tal de que vou falar agora.

Neste mês de abril, aliás, mês recheado de datas comemorativas referentes à literatura, minha filha esteve em uma loja e se deparou com um livro. Encantada com o título e a capa, abriu em uma página, leu, gostou, fotografou e me mostrou. Foi aí que a trama começou a se desenrolar, pegando o gancho de 2018.



O trecho, que fala exatamente de origens históricas e culturais foi motivo para chamar sua atenção. Em outro dia, sabendo que aprecio uma boa leitura, ela foi e comprou o tal livro. Quando me entregou, vi que a autora era Marília Lovatel. Contei a minha filha sobre a coincidência, falando do meu encontro com ela em 2018. 

O livro, é uma maravilha, uma história poetisada, uma prosa poética com lirismo, uma ficção com pitadas de realidade e verdades. O estilo dialoga com a oralidade e a herança das histórias passadas de geração em geração. Há uma valorização do saber ancestral, tratando a tradição não como algo estático, mas como uma linguagem viva que se renova através dos olhos da "menina".

O estilo poético é muito parecido com os escritos de minha mãe, em "Poesia do Meu jeito". Li em dois tempos. Encantada, levei o livro para mostrar a minha mãe, causando o interesse dela imediato em conhecê-lo. Li em voz alta para ela.

Caricatura IA a partir da foto real.

Gostou muito, tanto pela trama em si, como pela história rendada, pois ela aprecia demais uma linda renda, seja qual for o seu tipo e a sua lenda.

A trama de que falo, foram essas coincidências, O caso dos encontros, que aproveito agora para devolvê-las também em versinhos.

Livro A Menina dos Sonhos de Renda

O livro pensado outrora,
Pelas minhas mãos desliza,
Oito anos se foram agora,
E o plano enfim se realiza.
Ler para minha mãe o que tanto esperei,
É a alegria que hoje encontrei.

​Na trama escrita, o laço se faz:
Avó, mãe e filha em união.
Na vida real, o espelho traz
Três gerações num só coração.
A poesia da Marília é o elo,
Que torna o nosso trio um castelo.

AnaLu

domingo, 19 de abril de 2026

Povos originários: ancestralidade histórica e presença atual

Falar sobre os povos originários do Brasil exige olhar tanto para a profundidade histórica quanto para a resistência contemporânea. É impossível reduzir centenas de etnias a um único conceito, pois estamos tratando de uma diversidade cultural, linguística e social imensa. Ainda mais porque não sou especialista, muito menos estudiosa sobre a causa.

Mas, diante do dia de hoje em que é comemorado o Dia dos Povos Indígenas, posso trazer alguns​ pontos para homeneageá-los e para refletirmos a respeito.


Quanto à diversidade e pluralidade, sabemos que antes de 1500 estima-se que viviam no território entre 3 e 5 milhões de pessoas, divididas em mais de mil povos com troncos linguísticos distintos.

​Segundo o Censo do IBGE, hoje, o Brasil possui cerca de 1,7 milhão de indígenas, pertencentes a mais de 300 etnias e falando mais de 270 línguas vivas. ​A história dos povos originários não é apenas de "descoberta", mas de invasão e resistência.

​Diferente do século passado, onde a visão era muitas vezes de um indígena "passivo" ou em extinção, hoje vemos um forte protagonismo político. A criação do Ministério dos Povos Indígenas e a presença de lideranças em cargos de decisão (como no Congresso e na Funai) mudaram o patamar do debate público.

Também verificamos um crescimento exponencial de escritores, cineastas, artistas e acadêmicos indígenas que narram suas próprias histórias, combatendo qualquer tipo de estereótipo antes atribuído.

​É impossível não respeitá-los, nao admirá-los, afinal, contamos com muita influência desses povos, que está no DNA do Brasil, desde a culinária, passando pela língua, haja vista os milhares de nomes de cidades, plantas e animais, até ​os costumes, que todos nós conhecemos tão bem.

​Também é fundamental evitar o termo "índio", que é uma generalização imprecisa e carregada de estigma colonial. O termo indígena (que significa "original do lugar") ou povos originários é o mais adequado para respeitar a identidade dessas populações. A Lei 14.402/2022 determinou essa nova forma de denominá-los.

Aqui no Ceará, por exemplo, a herança dos povos Tremembé e Tabajara é um pilar central da identidade local, mesmo que muitos cidadãos só a descubram ao pesquisar a árvore genealógica.
As tradições slenciosas dizem muito dessa ancestralidade, como hábitos que a família nem percebe que são de origem indígena, tais como
​O uso medicinal de certas plantas, as técnicas específicas de preparo de alimentos, o vocabulário regional usado pelos mais velhos. É importante reconhecermos e valorizarmos tudo isso.

sábado, 18 de abril de 2026

Celebração e compromisso no Dia Nacional do Livro Infantil

Hoje comemoramos o Dia Nacional do Livro Infantil, instituído em homenagem ao nascimento de Monteiro Lobato, que, por ser o precursor da literatura infantil brasileira, é considerado o "pai" da literatura infantil brasileira.

Lobato não apenas escreveu para crianças, ele revolucionou a forma como a infância é tratada na literatura, criando o universo do Sítio do Picapau Amarelo, onde a fantasia e a realidade se fundem para estimular o pensamento crítico e a autonomia dos pequenos leitores. Para ele, o livro era o motor de transformação de uma nação.

Este dia é uma oportunidade para um chamamento de incentivo às nossas crianças, não como uma tarefa isolada, mas como uma prática rotineira e prazerosa que as acompanhará para por toda a vida.

​No centro desse processo, destacamos a atuação do bibliotecário. Como mediadores itinerantes, nossa missão ultrapassa os limites físicos das estantes. Analisando, vemos que o trabalho do bibliotecário junto ao público infantil é multifacetado.


Na Biblioteca, criamos o primeiro contato mágico, transformando o acervo em um território de descoberta e acolhimento. Na Família, atuamos como orientadores, sugerindo caminhos para que pais e responsáveis integrem o livro ao cotidiano doméstico. Na Sociedade, defendemos o acesso à informação e à cultura como direitos fundamentais, combatendo o deserto literário e promovendo a inclusão.

​Ser bibliotecário mediador intinerante é ser a ponte viva que conecta a curiosidade da criança ao universo infinito da leitura.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Um marco histórico: 300 anos

A "Loira desposada do Sol" é a famosa metáfora que Paula Ney criou para caracterizar Fortaleza. Fortaleza hoje completa 300 anos de uma trajetória que transformou um forte de resistência em uma das metrópoles mais vibrantes do Brasil.

Uma herança de pedra e cal. Diferente de muitas cidades que levam nomes de santos ou termos indígenas, o nome de Fortaleza é puramente funcional e militar. Ele deriva do Forte de Nossa Senhora da Assunção.

​A palavra "Fortaleza" evoca a ideia de um lugar fortificado, seguro e invencível. Curiosamente, a estrutura que deu origem ao nome não foi a primeira tentativa. A região abrigou o Forte Holandês Schoonenborch, construído por Matias Beck, em 1649.

​Mas, com a retomada pelos portugueses que recuperaram o território, a fortificação  foi rebatizada, e o pequeno vilarejo que cresceu ao redor passou a ser conhecido como a Vila da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção.

Imagem Wikipédia

​A história de Fortaleza não começa apenas com os muros de pedra. A região à época já era habitada por grupos indígenas como os Tremembés e Pitaguarys, que já conheciam as dunas e o litoral muito antes das caravelas.

​Embora o Forte holandês seja de 1649, a data oficial do aniversário celebra o ano de 1726., pois, foi nesse dia que a pequena Vila da Fortaleza foi oficialmente instalada, ganhando autonomia política e administrativa. 

Imagem Wikipédia

Celebrar os 300 anos em 13 de abril de 2026 é reconhecer três séculos de evolução urbana, de crescimento econômico, de belezas naturais, de receptividade e acolhimento com os turistas, e de tantas outras coisas mais.

Parabéns, Fortaleza! Minha Cidade querida. Que o sol continue sendo seu maior anfitrião e que os próximos séculos sejam tão brilhantes quanto o reflexo da luz na Praia de Iracema.

sábado, 4 de abril de 2026

Hora de "malhar o Judas"

A tradição de "Malhar o Judas" é antiga, embora carregue um tom de manifestação popular e folclórica, possui raízes profundas na narrativa da Paixão de Cristo e no sentimento de justiça cristã. 

Consolidou-se entre os séculos XI e XIV na península Ibérica, chegando ao Brasil através dos colonizadores portugueses e espanhóis, adaptando-se à cultura local. Tornou-se, então, uma festa comunitária muito forte, especialmente no interior e nas cidades coloniais.

No contexto da Semana Santa, esse rito simboliza o acerto de contas espiritual com aquele que, por trinta moedas de prata, entregou o Messias.

Para o católico, a leitura que se faz da figura de Judas Iscariotes é de fragilidade humana e o perigo da ganância. Malhar o boneco de palha no Sábado de Aleluia não é um ato de celebração da violência, mas sim uma simbologia contra o mal.

Sob o foco católico, isso serve como um exame de consciência coletivo. Ao apontar a traição de Judas, a comunidade é convidada a identificar em si mesma as pequenas traições diárias, tais como a fofoca, a desonestidade e a falta de caridade.

E você, já fez seu exame de consciência? Já refletiu em que pode melhorar?

Com o passar dos séculos, a tradição evoluiu. No Brasil e em outros países da América Latina, o Judas deixou de ser apenas a figura bíblica para se tornar um espelho de personagens impopulares da sociedade, como políticos, empresários ou figuras públicas que a comunidade sente que "traíram" o povo.

E você, tem algum Judas para malhar?

Aqui em Fortaleza, é tradição o José do Judas confeccionar vários bonecos para este fim e expô-los para venda na avenida Murilo Bordes. E como eu sempre faço esse trajeto, fiz essas imagens que compartilho aqui, já fazendo a leitura, conforme o contexto.




sexta-feira, 3 de abril de 2026

5W2H aplicado à gestão documental

Gosto muito da ferramenta 5W2H. Apesar de usá-lá em treinamentos internos, em projetos, em planos de ação nas empresas em que trabalho e também no dia a dia da vida pessoal, nesta, às vezes, quase sem perceber, não conhecia ainda a fundo a sua origem. Então, fui buscar informação a respeito.

Nasceu no "chão de fábrica". Ela surgiu dentro do Sistema Toyota de Produção, no Japão, durante a reconstrução industrial do pós-Segunda Guerra Mundial (meados da década de 1950 e 1960), afinal, o país tinha se erguer. Originalmente, ele foi criado para ser um checklist de gestão da qualidade.

Diferente de hoje, que usamos para planejar quase tudo, a intenção original da Toyota era eliminar a ambiguidade. Em uma linha de montagem, as ordens não poderiam ser vagas. Por exemplo, uma ordem como "melhorar a peça", era preciso dizer quem faria, como faria e por que, quando, qual peça. Além disso, tinha que haver a padronização, garantir que qualquer operário, em qualquer turno, entendesse exatamente o processo de fabricação ou a correção de um defeito.

A ferramenta também servia para apoiar a "melhoria contínua". Se algo dava errado, o 5W2H ajudava a traçar um plano de ação imediato para que o erro não se repetisse.

Mas, por que essa ferramenta se tornou tão famosa?

Antes do 5W2H, os planos de ação eram frequentemente textos longos e confusos. Os engenheiros japoneses perceberam que, respondendo a essas perguntas o problema teria um plano para solução.

No início, era apenas 5W1H. O segundo "H" (How Much / Quanto custa) foi adicionado posteriormente, quando as empresas perceberam que não adiantava ter um plano perfeito se ele não coubesse no orçamento.

Com o sucesso, foi sendo aplicado universalmente, de forma que o 5W2H é uma das ferramentas mais versáteis para a gestão, ela pode ser usada para elaboração de planos de ação nos mais diversos segmentos e e situações.

Pegando esse gancho, analisei a ferramenta e percebi que pode ser usada na gestão documental, não como um plano de ação comum, mas como um framework, para organizar o caos documental, seja ele físico ou digital, claro, sem esquecer as premissas necessárias.

Trazendo, então, para a realidade arquivística, resignifiquei cada letra do famoso acrônimo, conforme a seguir. 

🎯What (O que?) 
O primeiro W é o objeto. O que vamos trabalhar? Quais documentos? Precisamos classificá-los e padronizar a descrição para identificá-los corretamente e ser possível a sua localização na hora da busca.

👉🏻Who (Quem?)
Este segundo W é a proveniência do arquivo. Quem é o produtor/receptor dos documentos desse fundo? É necessário conhecer a estrutura organizacional, as funções, as atividades exercidas por completo, pois são elas que acumulam os documentos. 

🎯Why (por que?)
O terceiro W é a justificativa. É necessário conhecer a finalidade de cada documento que compõe o arquivo, isso, juntamente com o W anterior ajuda muito na definição da estrutra do arquivo, para possibilitar a construção dos instrumentos arquivísticos.

⏳When (Quando?)
O quarto W se refere à Temporalidade (Tabela de Temporalidade Documental - TTD). Por quanto tempo cada documento ou conjunto documental deve ficar no arquivo corrente (uso frequente), no arquivo intermediário (uso esporádico)? Quando deve ser eliminado ou guardado permanentemente? As informações desse W juntadas às anteriores ajudam na construção da TTD.

📍Where (Onde?)
O quinto e último W é a localização, não é apenas onde o arquivo está, mas onde ele deverá estar de acordo com sua fase de vida, ou seja, respeitando o ciclo documental: onde deve estar na idade corrente, na idade ntermediária e na permanente? E ainda, onde fazer o descarte quando chegar o tempo certo?

🗂️How (Como?)
Esse primeiro H se refere a como será o arranjo (estrutura), já conhecida antes, como se dará a organização (o todo) e como será a indexação (o refinamento). Associando ele a todas as demais informações já conhecidas e definidas nos cinco Ws, conseguimos "colocar a mão na massa", ou seja, executar as tarefas operacionais.

🗄️How Much (Quanto?)
Aqui, no segundo H e última letra do acrônimo, avaliamos o custo nos aspectos abaixo especificados, que terminam incidindo no aspecto financeiro, tradicional da ferramenta:
  • linearidade (quantos metros lineares de documentos existem?);
  • ​unidades (qual a quantidade de caixas-arquivo, pastas ou itens individuais?);
  • digital (quantos terabytes (TB) ou gigabytes (GB) de dados serão gerados ou migrados?).
Imagem de IA adaptada
 Geração a partir dos principais tópicos do texto

A aplicação dessa ferramenta possibilita que a gestão de documentos tenha início correto e possa ter continuidade, afinal, ela é dinâmica, tal qual o funcionamento de uma organização, seja ela pública ou privada.