terça-feira, 31 de março de 2026

"Penso, logo existo"

Hoje é o dia dele! Viva!

René Descartes não é apenas o "pai da filosofia moderna"; ele é o herói de quem gosta de questionar absolutamente tudo. Sou fã dele. Nas questões, sempre faço o papel de "advogado do diabo" para questionar e analisar por outros ângulos.

Descartes valoriza a autonomia do pensamento, convidando-nos para uma rebeldia intelectual. Ele viveu em uma época em que o conhecimento era baseado na autoridade, quando acreditavem cegamente no que a Igreja ou os antigos diziam. Daí decidiu que isso não bastava. Sua proposta é: não aceite nada como verdade se você não puder compreender de forma clara e distinta. Dessa forma, ele dá permissão para duvidar de tudo até encontrar algo inabalável.

​Portanto, a dúvida em Descartes é como uma ferramenta para o pensamento, não é um estado de crise. É a dúvida metódica que funciona como um reset para a mente. Descartes ensina que duvidar não é fraqueza, mas um processo rigoroso para eliminar preconceitos, pensamentos pré-existentes e arcaicos. É saber pensar de forma crítica. Com isso, há um protagonismo da consciência.

Imagem de IA

​Ao chegar na famosa conclusão "Cogito, ergo sum" (Penso, logo existo), ele coloca o indivíduo no centro do universo do conhecimento. A primeira certeza absoluta não vem do mundo exterior, mas da sua própria capacidade de pensar. É uma validação poderosa da existência individual.

​O método que propõe, organiza o caos. São quatro regras de ouro:
  • ​Dúvida metódica: Nunca aceitar algo sem prova.
  • Análise: Dividir problemas complexos em partes menores.
  • Síntese: Resolver do mais simples para o mais difícil.
  • Revisão: Revisar tudo para garantir que nada foi esquecido.
​Descartes conectou Ciência e Matemática, não ficou só no "mundo das ideias". Ele criou a Geometria Analítica (o famoso plano cartesiano). Sem ele, talvez não tivéssemos o desenvolvimento do cálculo ou da física moderna como conhecemos. Ele mostrou que a natureza pode ser descrita com a precisão da matemática.

​Foi diferente de muitos filósofos que escreviam de forma densa e em latim. Escreveu o Discurso sobre o Método em francês (a língua popular da época), para que qualquer pessoa da época com "bom senso" pudesse entender. Ele acreditava que a razão é a coisa melhor distribuída no mundo.

​"Não basta ter o espírito bom, o principal é aplicá-lo bem" (René Descartes, em Discurso do Método).

domingo, 29 de março de 2026

Referência com excelência

O serviço de referência é frequentemente descrito como o "coração" de uma biblioteca. Ele representa o ponto de encontro entre a necessidade de informação do usuário e a vasta coleção (física ou digital) de uma instituição.

​Em termos práticos, é o setor responsável por auxiliar o usuário a localizar, recuperar e utilizar a informação de maneira eficiente.

Diferente dos processos técnicos (como catalogação ou classificação), que ocorrem nos bastidores, o serviço de referência é a face pública da biblioteca. Ele exige que o profissional atue como um mediador ou facilitador, um intérprete, um buscador, que tem que conhecer um pouco de tudo e todas as formas de expressão dos usuários para fazer suas entregas com excelência. É um trabalho intenso no dia a dia, cheio de resiliência, mas é muito compensador.


Portanto, diante disso, vimos que o valor de uma biblioteca não é medido apenas pelo que ela possui, mas pela capacidade de conectar o que possui a quem precisa. Os mestres mais clássicos como Melvil Dewey e Ranganathan sempre defenderam essa ideia.

Dewey (1851-1931)

Dewey trabalhou com o conceito de eficiência. O criador do sistema de classificação decimal, CDD defendia o lema: "O melhor conteúdo, para o maior número de pessoas, ao menor custo". O foco dele era a eficiência da conexão, algo que a sua frase reflete muito bem.

Ranganathan (1892-1972)

Já Ranganathan com suas leis foi o primeiro a formalizar que o valor de um acervo é zero se ele não for utilizado. Embora ele não tenha dito essas palavras exatas, a frase é uma paráfrase direta das suas Cinco Leis da Biblioteconomia (1931), mais especialmente a 2a., 3a. e 5a.:
  • Segunda Lei: Para cada leitor, seu livro;
  • Terceira Lei: Para cada livro, seu leitor;
  • Quinta Lei: A biblioteca é um organismo em crescimento.
Por fim, na atualidade, trazendo o pensamento de David Lankes, vimos que ele reforça a ideia de que não adianta ter grandes coleções e possibilidades de acessos se esses produtos não atingem a comunidade, não levam aprendizado. 

As três visões mostram que é dessa forma que temos um serviço de referência com excelência.

domingo, 22 de março de 2026

O Salão belo da Lello

Assistindo Alma Portuguesa, no streming da Prime vídeo, que traz os vínculos históricos e culturais, as raízes profundas da nossa língua e a cultura que nos une a Portugal, me deparei com uma imagem já bem conhecida dos bibliotecários e dos turistas que visitam a cidade do Porto, a Livraria Lello.

Imagem obtida a partir da reprodução na TV, melhorada depois pela IA.

​Considerada uma das livrarias mais bonitas do mundo, a instituição foi fundada em 1906 pelos irmãos José e António Lello. O edifício é um dos exemplares mais emblemáticos do estilo neogótico no país. 

​Pesquisei sobre algumas curiosidades desse espaço:
  • a escadaria icônica: embora pareça de madeira entalhada, é na verdade feita de betão armado (concreto) com um acabamento pintado. Os degraus vermelhos tornaram-se a sua marca registada após uma renovação nos anos 90.
  • inspiração mágica: existe uma lenda muito popular de que a livraria teria inspirado J.K. Rowling na criação da biblioteca de Hogwarts na saga Harry Potter (a autora viveu no Porto no início da década de 90).
  • patrimônio monumental: foi classificada como Monumento de Interesse Público e, muito recentemente (em 2026), foi reclassificada como Monumento Nacional;
  • o vitral: no teto, existe um enorme vitral com a divisa latina "Decus in Labore" (Dignidade no Trabalho), que é o lema da casa. Na foto que fiz, o vitral não aparece por iteiro, não permitindo visualizarmos sua beleza, mas busquei uma foto com ele por inteiro.

O salão da foto não é o único ambiente, embora seja o mais famoso. Esse espaço central onde se encontra a escadaria é conhecido como o Salão Nobre ou simplesmente o corpo principal da livraria. O salão belo da Lello!

​A Livraria Lello possui dois andares principais, e cada área tem características distintas:

  • ​piso térreo (salão principal): é onde se entra e onde estão as grandes estantes que vão do chão ao teto. É o coração do edifício, onde a icônica escadaria começa;
  • primeiro andar (piso superior): subindo a escadaria, chega-se a uma galeria circular que permite observar todo o salão de cima. Neste andar, o destaque é o magnífico vitral de 8 metros no teto, que ilumina todo o interior; 
  • Espaço Gemma: espaço mais reservado chamado Gemma, dedicado a livros raros, edições de luxo e manuscritos antigos ("Gemma" vem do latim, significando "pedra preciosa", refletindo a raridade dos itens ali expostos).É um ambiente com uma atmosfera mais silenciosa e focada no colecionismo;
  • áreas de exposição: dependendo da época, a livraria utiliza outros espaços para exposições temporárias ou instalações artísticas, muitas vezes relacionadas com autores específicos ou marcos literários.
​Embora o edifício não seja vasto em termos de área quadrada, a sua riqueza está na verticalidade e nos detalhes decorativos que preenchem cada centímetro das paredes e tetos.

​É hoje um dos pontos turísticos mais visitados de Portugal, atraindo leitores e entusiastas de arquitetura de todo o mundo.


domingo, 15 de março de 2026

Faculdade CDL completa 18 anos

A Faculdade CDL, instituição em que trabalho desde a sua fundação, completa 18 anos.

Iniciei prestando serviço pela minha empresa J Universum.doc, para implantar a biblioteca. Essa implantação incluiu desde a definição do melhor layout juntamente com um arquiteto, passando pela elaboração do regulamento, até o processamento técnico dos livros.

A princípio, trabalhei o acervo da bibliografia adquirida até o meio do primeiro curso autorizado, exatamente como exige o MEC. Depois, já contratada como Bibliotecária celetista, as novas aquisições iam acontecendo, fazendo com que a biblioteca crescesse gradualmente, ano após ano, com os novos cursos sendo implementados. Hoje, com mais de 20.000 exemplares para atender aos 10 cursos.

Além do processamento técnico, necessário paravo controle do acervo e atendimento ao serviço de empréstimo domiciliar, a biblioteca  oferece outros serviços aos seus usuários, além de diversos projetos sazonais e perenes.

Orgulho em fazer parte, mais ainda porque estou desde o início e assisti esse crescimento, contribuindo diretamente para que acontecesse.

Os 18 anos da Favuldade CDL no LinkedIn

quinta-feira, 12 de março de 2026

Mediador e curador da informação

Em tempos de algoritmos e fake news, o bibliotecário atua como um filtro essencial da informação. Sua função evoluiu: ele constrói pontes entre a dúvida e a veracidade, orientando a navegação no ambiente digital com senso crítico e ética. Portanto, combate a desinformação, ajudando a sociedade a distinguir fatos de manipulações.

Diante do excesso de dados que frequentemente gera desorientação, o bibliotecário torna-se uma bússola. Sua atuação é hoje dinâmica e estratégica, baseada na curadoria especializada da informação. Enquanto as buscas na internet retornam milhares de resultados dispersos, o bibliotecário auxilia na identificação de fontes confiáveis e respostas relevantes.

Também promove inclusão e acesso, transformando bibliotecas em espaços comunitários vivos que ampliam a democratização da cultura e da tecnologia.

Na linha de frente do letramento informacional, garante que a informação seja um direito de todos, e não privilégio de poucos.



segunda-feira, 9 de março de 2026

De mulher para mulher. De bibliotecária para bibliotecária

No Dia Internacional da Mulher recebi essa mensagem super hiper emocionante da minha amiga Dadylla.


Dadylla atuou como estagiária na biblioteca da Faculdade CDL, desempenhando com esmero e dedicação as atividades, cativando o público de alunos e professores. Não deu outra, tornou-se uma profissional exemplar, comprometida em dar o seu melhor.

Outubro de 2013

Neste Dia Internacional da Mulher, de mulher para mulher, de bibliotecária para bibliotecária,  também a parabenizo neste espaço de leitura e contexto, afinal, ela atua muito bem no contexto, sempre fazendo a leitura certa.

domingo, 8 de março de 2026

Classificar: "muita calma nessa hora!"


O discernimento na classificação de documentos é, em essência, a bússola do arquivista. Não se trata apenas de colocar papéis em pastas, mas de entender a natureza das atividades que geraram aquele registro para garantir que a informação certa esteja disponível no momento oportuno.

​Abaixo, detalho os pilares desse processo crítico para a gestão documental:

​1. A Natureza da classificação

​Classificar não é um ato arbitrário baseado no suporte (papel, digital ou foto), mas sim um ato intelectual baseado na função. O discernimento entra em jogo ao identificar se um documento é o resultado de uma atividade-meio, gestão de recursos humanos, finanças, por exemplo, ou de uma atividade-fim, objetivo principal da instituição.

​2. O Plano de classificação como guia

​O discernimento deve ser exercido dentro de um Plano de Classificação de Documentos (PCD). Este instrumento reflete a estrutura lógica da organização. Ao classificar, o profissional deve se perguntar:
  • ​Qual a origem? Quem produziu este documento?
  • Qual a função? Por que este documento foi criado?
  • Qual o assunto? Sobre o que ele trata especificamente?
3. Desafios do discernimento

​Muitas vezes, a linha entre categorias pode ser tênue. O discernimento evita erros comuns, como:
  • Subjetividade excessiva: Evitar classificar documentos com base em critérios pessoais ("importante", "urgente"), focando sempre em critérios institucionais.
  • Acúmulo de documentos sem classificação: O uso indiscriminado da categoria "Diversos", que tem outras denominações: "Geral", "Outros", "Vários", é o cemitério da informação. O discernimento exige o esforço de encontrar o código específico.
4. Tabela de critérios

Classificar é dar ordem ao caos. Sem o discernimento técnico, o arquivo deixa de ser um ativo estratégico e passa a ser apenas um depósito de papéis inúteis."


​O discernimento técnico transforma a massa documental em conhecimento organizado. Ele permite que, anos após a criação de um documento, ele possa ser recuperado com precisão, servindo como prova administrativa, jurídica ou como fonte histórica.