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sábado, 29 de agosto de 2026

​A Curiosa história por trás da palavra ostracismo

Encontrei em Bibliotecas no Mundo do Antigo, de Lionel Casson, uma curiosidade em relação à palavra ostracismo.

​Hoje, quando dizemos que alguém caiu no ostracismo, nos referimos ao isolamento, ao esquecimento ou ao afastamento social e profissional de uma pessoa. Mas eu não sabia que esse termo nasceu literalmente no "lixo" da Grécia Antiga. Explico.

​Como o papel como conhecemos hoje não existia na época, para anotações diárias, rascunhos e recados rápidos, o papel de rascunho dos atenienses eram fragmentos descartados de cerâmica quebrada, peças de argila chamadas de ostraka, em que escreviam na superfície com objetos pontiagudos ou escreviam com pena e tinta.


​Mas, de cacos de cerâmica chegaram ao exílio político, isso porque, além de servir como rascunho, esses pedaços de cerâmica tinham uma função política fundamental na democracia ateniense: a votação para o exílio.

​Quando a assembleia entendia que determinado cidadão representava uma ameaça à estabilidade da cidade ou à democracia, era convocada uma votação. Cada eleitor pegava uma ostraka e riscava nela o nome da pessoa de quem queriam se livrar.

​Se a maioria votasse contra essa pessoa, ela era enviada para o exílio por um período de dez anos.

​Daí o legado do termo foi exatamente por conta do suporte usado para registrar o voto, a ostraka, que essa prática de banimento passou a ser chamada de ostracismo.

​Assim, o termo que hoje associamos ao isolamento e ao esquecimento começou, na verdade, com o hábito de reaproveitar cacos de cerâmica para decidir o destino político de Atenas.

É exatamente o que Casson (2018) traz na página 36, conforme abaixo.
O seu papel de rascunho eram pedaços descartados de cerâmica quebrada que eles riscavam com um objeto pontiagudo; também escreviam sobre ele usando pena e tinta. A palavra grega para esses blocos era ostraka, o ostracismo – prática inventada pelos atenienses pela qual os cidadãos votavam entre si na pessoa de quem queriam se livrar e, em seguida, a enviavam para o exílio –, que era assim chamado porque os eleitores riscavam o nome de seu candidato na ostraka.
CASSON, Lionel. Bibliotecas no mundo antigo. Tradução de Cristina Antunes. Belo Horizonte: Vestígio, 2018. 208 p.

domingo, 4 de janeiro de 2026

Escribas e Copistas

Lendo "Bibliotecas no Mundo Antigo", de Lionel Casson, me deparei com os termos escribas e copistas. Embora já conhecesse a diferença de forma mais comum, o livro trouxe a oportunidade de aprofundar a questão. Apesar de serem usados frequentemente como sinônimos, pois ambos representam quem escrevia à mão antes da invenção da imprensa, existe uma distinção sutil, especialmente ligada ao status social e à autonomia de cada função, por isso, apresento as principais diferenças.

Escriba: administrador e intelectual

Escriba na Suméria, cerca de 2.500 A.C

​Na Suméria, os escribas eram a espinha dorsal da civilização. Em uma sociedade que inventou a escrita cuneiforme, para gerenciar a complexa economia de suas cidades-estado, esses profissionais detinham o "superpoder" da época: a alfabetização. 

Eram formados na "Casa das Tábuas" (Eduba) e para se tornar um escriba era um processo longo, caro e rigoroso. Os jovens, geralmente de famílias ricas, frequentavam a Eduba, começavam aprendendo a moldar a argila e a cortar o estilete de cana. Depois, memorizavam milhares de sinais e listas de vocabulário, progredindo para matemática, contabilidade e literatura.

Historicamente, especialmente no Egito Antigo, na Mesopotâmia e na Judeia, o escriba era muito mais do que um "copiador". Ele era um profissional de elite e um funcionário público.
  • ​Função: além de escrever, ele redigia leis, gerenciava impostos, registrava censos, interpretava textos sagrados e atuava como secretário real.
  • ​Poder: possuía grande prestígio social porque dominava a escrita em sociedades onde a maioria era analfabeta.
  • ​Autonomia: no contexto bíblico ou egípcio, o escriba podia ter autoridade para interpretar a lei ou adaptar textos administrativos. Eles eram os "guardiões do conhecimento". 

Copista
: especialista em reprodução

​O copista, apesar de já existir na Antiguidade, é mais comum a partir da Idade Média, como os famosos monges copistas, e a sua função foca, especificamente, no ato de replicar um conteúdo já existente.
Se estamos falando sobre a administração de um império antigo, o correto é usar escriba. Se estamos falando sobre a preservação de livros e a criação de bibliotecas manuais, devemos usar copista.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Haja bibliotecas!


Iniciando o ano com a leitura de "Bibliotecas no Mundo Antigo", de Lionel Casson, da Editora Vestígio.


Foi presente de Natal da minha filha e já iniciei a leitura. Além das bibliotecas citadas, há todo um contexto histórico em volta da existência e uso de cada uma delas.


O autor, que foi um renomado especialista em história clássica, traça uma linha do tempo que vai desde as tabuletas de argila da Mesopotâmia até a transição para as bibliotecas monásticas da Idade Média.

Digo "haja bibliotecas!" porque para o contexto do mundo antigo, com a dificuldade para reprodução dos livros, quando era usado o trabalho dos copistas, as que existiam, já eram em número considerável.

Não há um número exato de bibliotecas no mundo antigo, mas existiram dezenas, talvez centenas, desde as primeiras em tábuas de argila na Mesopotâmia, passando por centros icônicos como Alexandria e Pérgamo, até as muitas bibliotecas públicas e imperiais em Roma, com cerca de 13 na época de Augusto, consolidando-se como centros de cultura e poder em diversas civilizações antigas.

Seguem alguns dos principais exemplos e contextos, segundo o autor:

As origens no Oriente Próximo

​O livro começa demonstrando que as primeiras "bibliotecas" não eram centros de lazer, mas arquivos administrativos e reais. As primeiras bibliotecas surgiram na Mesopotâmia (2º milênio a.C.), com coleções de tábuas de argila, como a lendária biblioteca de Assurbanipal em Nínive.​

Tabuletas de argila: na Suméria, Babilônia, os "livros" eram feitos de argila.

Biblioteca de Assurbanípal: Casson destaca a biblioteca do rei assírio em Nínive como o primeiro exemplo de uma coleção organizada sistematicamente, contendo textos literários, religiosos e científicos, além de documentos governamentais.

​A Revolução Grega e o papiro

​Com a introdução do papiro (vinda do Egito) e o florescimento da cultura grega, a leitura deixou de ser apenas uma ferramenta estatal para se tornar parte da educação (paideia) e do lazer. Surgem bibliotecas privadas e Aristóteles é citado como um dos primeiros grandes colecionadores de livros, cuja biblioteca serviu de modelo para o que viria a ser o padrão helenístico.


​Um capítulo central é dedicado a Alexandria. Casson explica como os Ptolomeus buscaram "coletar todos os livros do mundo".Grécia e Helenismo: cidades como Alexandria e Pérgamo abrigavam grandes bibliotecas, famosas por seus vastos acervos de papiros e pergaminhos e por atraírem estudiosos.

Sobre a organização, ele detalha o trabalho dos bibliotecários (como Calímaco), que criaram os primeiros catálogos (Pinakes), estabelecendo métodos de classificação que influenciaram bibliotecas por séculos.

Sobre a concepção de biblioteca da época, esta não era apenas um depósito, mas parte de um centro de pesquisa (o Museion).

Roma: bibliotecas públicas e status

​Os romanos inicialmente adquiriram bibliotecas como espólios de guerra das cidades gregas. A Roma Antiga desenvolveu bibliotecas importantes, como as de Augusto e Trajano, com milhares de rolos e espaços dedicados à leitura, refletindo o apreço pela cultura grega e latina.​

Bibliotecas públicas: Júlio César planejou e Augusto executou a criação de bibliotecas abertas ao público. Em Roma, era comum as bibliotecas terem duas seções: uma para textos em grego e outra para textos em latim.

Arquitetura: Casson descreve como eram os prédios: nichos nas paredes para guardar os rolos (volumina) e espaços para leitura com luz natural.

Havia bibliotecas em outras Localizações como em villas (Vila dos Papiros em Herculano), templos, e até mesmo coleções particulares, mostrando a disseminação do hábito de guardar livros.​

Mudanças tecnológicas: do rolo ao códice

​O autor explica a transição crucial do rolo de papiro para o códice (o formato de livro com páginas encadernadas que usamos hoje). O códice era mais prático para consulta e permitia escrever nos dois lados, além de ser mais durável por usar pergaminho (pele de animal).


​O livro termina mostrando como a ascensão do Cristianismo mudou o foco das bibliotecas. Com o declínio do Império Romano, as grandes bibliotecas públicas desapareceram, e o conhecimento passou a ser preservado quase exclusivamente em mosteiros, onde o foco era o estudo de textos sagrados, mas onde os monges copistas também acabaram salvando muitos textos clássicos da antiguidade.

Embora seja impossível quantificar todas, o mundo antigo foi rico em bibliotecas, que variavam de grandes instituições estatais a coleções privadas, essenciais para a preservação do conhecimento.