sábado, 28 de fevereiro de 2026

Estratégia em bibliotecas

Gerenciar um grande volume de demandas variadas exige que o bibliotecário de referência deixe de ser apenas um "buscador de informações" e passe a ser um curador estratégico.

​Em um cenário de sobrecarga, deve-se agir com estratégia, Uma das soluções é criar produtos de informação de autoatendimento, ou seja, do tipo self-service​Por que esta pode ser uma solução?

​Se você responde individualmente a cada pergunta repetitiva, você está operando no operacional, não no estratégico. Ao transformar demandas recorrentes em produtos estruturados, você ganha escala. Com isso temos:
Mas, como aplicar essa estratégia na prática? ​Para implementar isso de forma eficiente, podemos focar nessas questões:
  • mapeamento de Padrões (taxonomia de demandas): análise das solicitações do último mês, agrupando-as, como por exemplo, se 40% das dúvidas são sobre "como formatar ABNT" ou "como usar a base de dados da biblioteca, isso pode ser um alvo para um produto de informação;
  • criação de guias temáticos por área de conhecimento;
  • tutoriais em pílulas: vídeos de 60 segundos sobre funções específicas do catálogo, da plataforma, das bases de dados;
  • FAQs Inteligentes: uma base de conhecimento pesquisável no site da biblioteca;
  • marketing da referência: educação do público para usar as ferramentas de autoatendimento como primeiro passo, afinal, não adianta criar o produto se o usuário não sabe que ele existe;
  • ​o salto de valor: a curadoria de curadorias.
Imagem de IA

​O bibliotecário estratégico não apenas entrega o peixe (a informação), nem apenas ensina a pescar (letramento informacional), ele mapeia o melhor oceano. Em vez de buscar cada artigo para o usuário, você entrega o "mapa da mina" atualizado, para aquela necessidade específica. 

Importante saber: É impossível atender a todos com a mesma profundidade. A estratégia reside em decidir o que será automatizado para que o atendimento personalizado seja de altíssimo nível.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Bibliotecas em filmes

Imagem de IA

Bibliotecas no cinema costumam ser lugares de refúgio, mistério ou até de punição. Além dos filmes que já assisti (inclusive já fiz post sobre "A Bela e a Fera" e "Um Sonho de liberdade") pesquisei outros e fiz uma lista, dividindo-a conforme o papel que elas desempenham em cada história. Depois dessa pesquisa, vou agendar as sessões de cada um desses que ainda não assisti.
A Biblioteca como Protagonista
  • O Clube dos Cinco (1985): um clássico absoluto. Quase todo o filme se passa na biblioteca de uma escola, onde cinco alunos de grupos sociais diferentes precisam cumprir um dia de detenção.
  • The Public (2018 - O Público): um drama atual em que a biblioteca pública de Cincinnati se torna um abrigo improvisado para pessoas em situação de rua durante uma onda de frio extremo, gerando um impasse político e social.
  • Party Girl (1995 - Baladas em NY): uma jovem festeira de Nova York, após ser presa, começa a trabalhar na biblioteca onde sua madrinha é diretora e acaba descobrindo uma paixão inesperada pela biblioteconomia.
  • O Mestre da Fantasia (1994): um garoto tímido se abriga em uma biblioteca durante uma tempestade e é transportado para um mundo animado inspirado em clássicos da literatura.
​Ambientes de Mistério e Investigação
  • O Nome da Rosa (1986): Em um mosteiro medieval, uma série de crimes ocorre em torno de uma biblioteca labiríntica e secreta que guarda livros proibidos.
Cena do filme "O Nome da Rosa", com os atores Sean Connery e Christian Slater na biblioteca secreta do mosteiro.
​Bibliotecas Fantásticas e Inesquecíveis
​Lugares de Superação e Transformação
  • Um Sonho de Liberdade (1994): o protagonista Andy Dufresne dedica anos de sua vida na prisão para transformar um depósito de livros abandonado em uma biblioteca digna para os detentos.
  • Matilda (1996): a biblioteca é o refúgio onde Matilda, negligenciada pelos pais, descobre seu intelecto e seus poderes por meio da leitura.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Taxonomia e metadados

Na Arquivologia, a taxonomia é um dos instrumentos mais estratégicos para a organização e a recuperação da informação. Ela consiste na estrutura hierárquica que classifica os documentos de acordo com funções, atividades, assuntos ou estruturas organizacionais. Em outras palavras, é o “mapa lógico” que traduz a dinâmica institucional em categorias organizadas e inteligíveis.

A taxonomia não é apenas uma lista de termos. Ela é construída a partir do contexto de produção documental, respeitando princípios clássicos da Arquivologia, como a organicidade e a proveniência. Quando bem elaborada, facilita a gestão, o acesso, a avaliação e a preservação dos documentos, tanto físicos quanto digitais.

Contudo, especialmente em ambientes digitais complexos, chega um momento em que a taxonomia, por si só, se mostra insuficiente. Isso ocorre porque a realidade organizacional é dinâmica, multifacetada e atravessada por múltiplas perspectivas de uso da informação. 


Portanto, diante da complexidade informacional, quando a taxonomia se esgota,  quando não é mais suficiente para filtrar a busca, entram em cena os metadados.  Isso porque chega-se a um estágio em que não cabe mais essa hierarquia, ou seja, quando já não consegue abarcar todas as possibilidades de recuperação e contextualização.

Eles ampliam o horizonte, são "dados sobre dados", atributos específicos anexados ao arquivo que permitem buscas transversais, independentemente de onde o arquivo esteja guardado. Podemos dizer que os metadados são o DNA da Informação

Os metadados permitem buscas cruzadas, filtros refinados, interoperabilidade entre sistemas e maior precisão na recuperação da informação, especialmente em ambientes digitais e repositórios eletrônicos. Eles vão na especificidade do documento, porque cada um é único, tem seus próprios dados, ou seja, a característica da unicidade do documento arquivístico. 

Enquanto a taxonomia organiza por categorias predefinidas, os metadados descrevem o documento em múltiplas dimensões. Eles agregam informações como autor/titular, espécie documental, número, indexação (assunto, palavras-chave, descritores) temporalidades, entre outros elementos descritivos e técnicos. Se a taxonomia define “onde” o documento está classificado, os metadados explicam “o que ele é”, “como foi produzido”, “para que serve” e “como pode ser recuperado”.

Assim, taxonomia e metadados não são instrumentos concorrentes, mas complementares. A taxonomia estrutura; os metadados detalham. A primeira organiza a lógica institucional; os segundos enriquecem a descrição e viabilizam múltiplos caminhos de acesso.

Na Arquivologia contemporânea, sobretudo diante da transformação digital e da gestão eletrônica de documentos, compreender essa transição, da classificação hierárquica para a descrição ampliada por metadados, é essencial. Quando a estrutura já não comporta a complexidade informacional, não se abandona a organização: amplia-se a camada de descrição.

Em síntese, a maturidade da gestão documental se revela justamente nesse ponto: saber quando a taxonomia cumpriu seu papel estruturante e reconhecer que é por meio dos metadados que se garante profundidade, precisão e inteligência informacional.

​O limite da taxonomia é a localização física ou lógica. Ela diz onde o arquivo está, mas não descreve o que ele é em detalhes.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Curiosidades sobre os arquivos históricos



Arquivos históricos são muito mais do que apenas "depósitos de papéis velhos". Eles são a espinha dorsal da nossa memória coletiva e escondem fatos fascinantes sobre como a humanidade se desenvolveu e organizou sua própria história.

Pesquisei sobre algumas das curiosidades mais interessantes do mundo dos arquivos e cito a seguir.

Arquivos nem sempre foram públicos

Por muito tempo, arquivos serviram apenas ao poder do Estado. A ideia de acesso público é relativamente recente e ligada à democracia e ao direito à informação.

Um erro de arquivamento pode mudar a história

Documentos mal descritos ou classificados podem ficar “invisíveis” por décadas — há descobertas históricas feitas simplesmente porque alguém reorganizou um fundo documental.

O Papel não é o único suporte

A Arquivística não trata apenas com documentos em papel. Existem arquivos em suportes peculiares, que existiram ao longo do tempo. 
  • Tabletes de argila: As "planilhas" da Mesopotâmia que duram milhares de anos.
  • Placas de xisto tartéssicas (ou da Civilização de Tartessos) são artefatos arqueológicos fundamentais para o entendimento da escrita, arte e sociedade no sudoeste da Península Ibérica.
  • Papiro e pergaminho: se o papel moderno é o "queridinho" da nossa era, o papiro e o pergaminho foram as superestrelas da antiguidade. Eles não só permitiram o registro da história, como ditaram a forma como lemos e escrevemos até hoje.
  • Microfilme: Uma tecnologia antiga, mas ainda uma das mais confiáveis, pois podem durar até 500 anos se conservados corretamente.
  • DNA: Pesquisadores já estão testando o armazenamento de dados digitais em cadeias de DNA, que podem guardar quantidades massivas de informação por milênios.
Cheiros e cores contam história

O amarelado do papel, manchas e até o cheiro característico vêm da oxidação da celulose e dos tipos de tinta usados em diferentes épocas.

Inimigos silenciosos

Há outros inimigos do arquivo além do fogo.
  • Lignina: Uma substância natural do papel de madeira que o torna ácido e amarelado com o tempo.
  • Umidade: Que atrai fungos e o temido "bicho-do-livro".
  • Luz UV: Que desbota a tinta e enfraquece as fibras do papel de forma irreversível.

Arquivo Apostólico do Vaticano (antigamente chamado de "Arquivo Secreto") possui cerca de 85 quilômetros de estantes lineares. Apesar do nome "secreto", o termo vem do latim secretum, que significa "particular" ou "privado". Hoje, pesquisadores qualificados podem acessar a maioria dos documentos, que incluem registros da Inquisição, excomunhão de Martinho Lutero, cartas de Maria Antonieta, dentre outros.

O Arquivo do Fim do Mundo

Localizado na Noruega, o Svalbard Global Seed Vault é tecnicamente um arquivo de sementes. Ele armazena duplicatas de sementes de todo o planeta em uma montanha gelada para garantir a segurança alimentar da humanidade em caso de catástrofes globais.

Arquivo histórico é vivo?

A resposta é: depende da perspectiva, mas tecnicamente, não. Para a teoria arquivística clássica, o termo "arquivo vivo" é o oposto do "arquivo histórico". Vamos entender essa distinção para que não seja confundida.

Podem se ser considerados vivos somemte de forma metafórica, em sentido figurativo, pois diz-se que um arquivo histórico é "vivo" quando ele é frequentemente consultado por pesquisadores, quando gera novas interpretações sobre o passado ou quando é dinâmico em sua extroversão (exposições, mídias digitais)

No sentido técnico, chamar um arquivo histórico de "vivo" pode ser considerado um erro conceitual, pois o "arquivo vivo" (corrente) é aquele que ainda pode sofrer alterações administrativas, enquanto o histórico é custodiado para garantir sua imutabilidade.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

A Função estratégica dos arquivos

Uma postagem muito consciente e verdadeira do arquivista Marcio Oliveira no LinkedIn, intitulada "Arquivologia: a profissão que não se sonha, se descobre", traz, no último parágrafo, o resumo de tudo. Gostei tanto, que transcrevo abaixo, me motivando a fazer esta postagem.

"Quando o arquivo é tratado apenas como espaço físico, e não como função estratégica, o prejuízo não é apenas documental, é institucional."(Márcio Oliveira)

Mas, o que seria essa função estratégica?

É exatamente o papel que o arquivo exerce como instrumento de gestão, apoiando as atividades administrativas, operacionais e estratégicas da empresa. 

O arquivo organiza, controla, preserva e disponibiliza informações confiáveis, no momento certo, para as pessoas certas. Portanto, ela está diretamente ligada à tomada de decisão, à eficiência organizacional, à segurança jurídica e à preservação da memória institucional.

Em outras palavras, podemos dizer que: 
📂 arquivo bem gerido = informação acessível + decisão qualificada.

Agora, analisando os pontos focais, é necessário:
🤔reduzir decisões baseadas apenas em suposições;
👉 entender que sem arquivo organizado, a empresa decide “no escuro”;
⚖️ fazer com que o arquivo funcione como escudo jurídico da empresa.

Com isso, temos:
📈 menos caos informacional e mais produtividade;
🧠 o arquivo preservando a memória da organização.

Mas ainda é importante ressaltar que:

Portanto, engana-se quem pensa que um arquivo é apenas um "depósito", ele é o alicerce de uma instituição. Com ele bem gerido contamos com:

A função estratégica do arquivo se concretiza quando ele deixa de ser visto como um setor “fim de linha” e passa a ser reconhecido como um ativo informacional essencial ao negócio.