domingo, 19 de julho de 2026

A Estratégia vem antes do investimento


Toda organização bem-sucedida parte de um princípio simples: a estratégia precede o investimento.

Investir sem uma estratégia definida não é investir, é apostar. É confiar na sorte ou, no pior dos cenários, desperdiçar tempo, dinheiro, energia e talentos em iniciativas sem direção.

Para compreender essa lógica, basta observar a função de cada etapa dentro da gestão.

A estratégia define o destino, ela estabelece o rumo da organização. É o momento de analisar o cenário, compreender os desafios e escolher os caminhos que conduzirão aos resultados desejados. Nessa fase são definidos:
  • os objetivos que se pretende alcançar;
  • os problemas que precisam ser resolvidos;
  • as oportunidades que devem ser aproveitadas;
  • os riscos que precisam ser mitigados;
  • os critérios que indicarão o sucesso.
Em outras palavras, a estratégia responde ao por quê e ao para onde.

Depois da estratégia vem o planejamento, que vai transformar a estratégia em ação. É ele que transforma a visão em um plano executável, organizando recursos, prazos, responsabilidades e orçamento.

Aqui são respondidas perguntas fundamentais: como, quando, quem, onde e com quais recursos a estratégia será colocada em prática.

Com isso definido, toma-se a decisão, que representa o compromisso com o plano, com o caminho escolhido.

É nesse momento que se conclui: o plano é viável, os riscos são aceitáveis e vale a pena investir. Somente após essa decisão o investimento deixa de ser uma possibilidade para se tornar uma ação concreta.

O investimento é o fornecimento dos recursos, é o combustível que viabiliza a execução. Ele pode assumir diferentes formas: recursos financeiros, tecnologia, infraestrutura, tempo, pessoas ou conhecimento.

Quando ocorre no momento certo, potencializa a estratégia. Quando acontece antes dela, normalmente produz desperdícios.

Entre os erros mais frequentes estão:
  • a aquisição de tecnologias sem uma necessidade claramente identificada, resultando em subutilização;
  • consumo excessivo de tempo e orçamento em iniciativas desalinhadas com os objetivos;
  • retrabalho provocado pela ausência de direcionamento;
  • dificuldade em medir o retorno sobre o investimento (ROI), já que não foram definidos objetivos e indicadores desde o início.
Definido o investimento corretamente, sem os erros acima, é a hora da execução, ela transforma planos em resultados. Nenhuma estratégia gera valor apenas no papel. A execução é a etapa em que o planejamento se materializa por meio das ações da equipe, dos processos e das entregas. Sem execução, estratégia e planejamento tornam-se apenas documentos bem elaborados.

Agora é hora de monitorar e acompanhar o desempenho. Afinal, executar também significa acompanhar. O monitoramento permite verificar se os indicadores de desempenho (KPIs) e o retorno sobre o investimento (ROI) estão alinhados às metas estabelecidas. É essa etapa que revela se a organização está avançando na direção correta ou se precisa corrigir a rota.

Dai, depois de disso, ocorre o aprendizado e se conhece o ajuste necessário para fechar o ciclo, porque ao final de cada ciclo, os resultados precisam ser analisados. Os acertos devem ser fortalecidos, os erros, compreendidos e corrigidos. Esse aprendizado alimenta uma nova estratégia, mais consistente e melhor adaptada à realidade da organização.

Assim, estratégia e investimento não formam uma sequência isolada, mas um processo contínuo de evolução. Portanto, o ciclo completo da gestão é:
  • Estratégia — define o propósito e a direção; 
  • Planejamento — organiza a forma de executar;
  • Tomada de decisão — aprova o caminho escolhido;
  • Investimento — disponibiliza os recursos necessários;
  • Execução — transforma o plano em ação;
  • Monitoramento — mede o desempenho e os resultados;
  • Aprendizado e ajuste — incorpora as lições aprendidas e reinicia o ciclo.
Uma metáfora resume bem esse processo: a estratégia escolhe o alvo, o planejamento define a melhor forma de atingi-lo, a decisão autoriza o disparo, o investimento fornece o arco e as flechas, a execução realiza o lançamento, o monitoramento acompanha a trajetória e o aprendizado ensina como acertar o próximo disparo com ainda mais precisão.

Sem um alvo definido, qualquer flecha será lançada ao acaso. Da mesma forma, sem estratégia, todo investimento corre o risco de se transformar apenas em custo, e não em geração de valor.

domingo, 12 de julho de 2026

São Bento, a leitura e a biblioteca

Visitei o Mosteiro de São Bento acompanhada das amigas bibliotecárias Efigênia Fontenele e Valdira Coutinho. ♡♡

Assistimos a missa em homenagem ao Dia de São Bento, celebrado oficialmente pela Igreja Católica em 11 de julho. Foi uma tarde incrível, além da missa belíssima cheia de cânticos, uma homilia carregada de significados santos e cristãos, a partir da Regra de São Bento.

Depois da missa, passeando nas dependências externas me deparei com os painéis que representam os capítulos da Regra que ele estabeleceu. Aproveitei para fazer o registro em um dos painéis, exatamente o que ilustra livros dispostos em um ambiente, que se assemelha a uma biblioteca. 



O documento escrito por São Bento de Núrsia no século VI é um texto único e unificado. Ele é chamado historicamente de "A Regra de São Bento" (do latim Regula Benedicti).

A estrutura do texto é dividida por 73 capítulos bem definidos e um Prólogo. Os capítulos tratam desde a organização da vida cotidiana no mosteiro até as virtudes, tais como a humildade e a obediência.

No capítulo 48 da Regra de São Bento, intitulado "Do trabalho manual cotidiano" (De opera manuum cotidiana), a "biblioteca" é explicitamente mencionada. Esse capítulo é um dos mais famosos e importantes da Regra, pois é nele que São Bento organiza o tempo dos monges entre o trabalho físico e a leitura orante e espiritual (Lectio Divina). Ele também fala da guarda e da organização dos livros. 

Os monges também tinham momentos de leitura comunitária e organizavam os livros em locais, o que deu origem às bibliotecas monásticas.

A leitura não era vista como um passa-tempo. São Bento exigia que os monges lessem os livros em ordem e por inteiro, do início ao fim, com atenção, meditando nas palavras e evitando distrações. A leitura também era fiscalizada para garantir que ninguém ficasse sem ler o que devia ou disperso.

Esse cuidado com os livros e com o ato de ler acabou transformando os mosteiros beneditinos nos maiores guardiões e copiadores da literatura ocidental durante a Idade Média.



Amigas de verdade 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

A Escrita e a Contabilidade


Os primeiros registros escritos da humanidade não foram poemas, tratados filosóficos ou códigos de leis, mas anotações destinadas ao controle patrimonial e administrativo. Em outras palavras, os primeiros textos da história foram, essencialmente, registros contábeis.

Se a astronomia nasceu da necessidade de compreender o céu para garantir a sobrevivência, a contabilidade surgiu da necessidade de organizar a vida na Terra, especialmente quando os seres humanos deixaram de ser nômades e passaram a se estabelecer em comunidades permanentes.

Nesse contexto, o surgimento da escrita, entre aproximadamente 4000 e 3000 a.C., está intimamente ligado às demandas da contabilidade. Na Mesopotâmia, região correspondente ao atual Iraque, a transição para a Revolução Agrícola transformou profundamente as relações sociais e econômicas. 

À medida que civilizações como a dos sumérios passaram a produzir excedentes, armazenar colheitas e domesticar animais, a memória humana tornou-se insuficiente para controlar a posse de bens, os tributos e as obrigações entre indivíduos e instituições. Foi dessa necessidade prática que nasceu a contabilidade, hoje reconhecida como uma ciência social aplicada. 

Como prática sistemática, a contabilidade caminha ao lado da matemática e antecede, em muitos séculos, campos do conhecimento como a filosofia e a medicina gregas. Sua origem está diretamente relacionada à necessidade de administrar recursos, organizar a produção e garantir o funcionamento das primeiras sociedades complexas.

Inicialmente, os sumérios utilizavam pequenas fichas de argila (tokens) para representar bens, como ovelhas, cabeças de gado ou sacas de trigo. Posteriormente, esses registros evoluíram para as tabuletas de argila gravadas com caracteres cuneiformes, empregadas para documentar transações comerciais, estoques, impostos e a administração dos templos.

Entretanto, se recuarmos ainda mais no tempo para investigar a proto-contabilidade, chegaremos ao Neolítico, a partir de aproximadamente 8000 a.C., no Crescente Fértil, período marcado pela consolidação da agricultura e da domesticação de animais. Antes mesmo da escrita cuneiforme, eram utilizadas pequenas fichas de argila em diferentes formas geométricas, como cones, esferas e cilindros, cada uma representando um tipo específico de mercadoria e sua respectiva quantidade. Um cilindro, por exemplo, podia indicar uma cabeça de gado, enquanto uma esfera representava uma medida de trigo.

Por volta de 3500 a.C., surgiu uma importante inovação: os bullae, ou envelopes de argila. Neles, as fichas eram seladas para assegurar que as mercadorias transportadas não fossem desviadas ou adulteradas. Com o tempo, para evitar a necessidade de quebrar o invólucro e verificar seu conteúdo, os responsáveis pelos registros passaram a pressionar cada ficha sobre a superfície externa da argila antes de fechá-la. Esse procedimento constituiu um passo decisivo rumo à representação gráfica da informação e, consequentemente, ao desenvolvimento da escrita.

Com o tempo, tornou-se desnecessário selar os objetos de argila: bastava registrar seus símbolos diretamente sobre uma superfície plana. Desse processo evolutivo nasceram as primeiras tabuletas de argila e, com elas, a escrita cuneiforme, desenvolvida pelos sumérios por volta de 3200 a.C.

Inicialmente, essa escrita possuía uma finalidade essencialmente administrativa. Era utilizada para registrar estoques, tributos, transações comerciais, contratos, distribuição de alimentos e a gestão dos bens pertencentes aos templos e aos governantes. Somente séculos mais tarde a escrita seria empregada para fins literários, jurídicos, religiosos e filosóficos.

Assim, a história da escrita e a história da contabilidade são inseparáveis. Antes de registrar mitos, epopeias ou leis, a humanidade precisou registrar o patrimônio, controlar a produção e organizar a vida coletiva. Em certo sentido, a escrita nasceu para contar e, antes de contar histórias, aprendeu a contabilizar.


quarta-feira, 1 de julho de 2026

Inexorável e Exponencial

No Dia Mundial da Biblioteca, homenageamos a instituição que vive em inexorável servidão e exponencial contribuição à memória e ao desenvolvimento da humanidade.


Essa servidão não representa submissão, mas um compromisso absoluto, permanente e inegociável, quando preserva o conhecimento humano, registra os erros e os triunfos da civilização e assegura que a experiência de uma geração permaneça acessível às seguintes.

Sem descanso e sem desvios, a biblioteca guarda a história, a ciência, a cultura e a imaginação humana. Sua missão não se encerra na preservação dos livros, hoje, tanto físicos como digitais. Cada livro consultado, cada pesquisa realizada e cada descoberta compartilhada fazem com que esse patrimônio se reproduza em cada indivíduo que o utiliza, ampliando continuamente seu alcance. Assim, a ação da biblioteca torna-se exponencial, pois o conhecimento preservado transforma pessoas, e pessoas transformadas produzem novos conhecimentos, perpetuando um ciclo que beneficia toda a humanidade.

Quem de nós nunca recorreu a ela? Da infância à idade adulta, a biblioteca sempre esteve ali, de portas abertas, pronta para nos guiar por novos mundos.

Celebrar o Dia Mundial da Biblioteca é reconhecer essa vocação inabalável de guardiã da memória e da identidade humana, lembrando que preservar o passado é também multiplicar as possibilidades do futuro.